A Assembleia de Deus em Porto Alegre: sucessões tumultuadas (parte 3)

By | March 4, 2012
João Ferreira Filho preside a igreja até o ano de 2004, quando um câncer lhe afasta da direção do trabalho. Com o seu afastamento da presidência da igreja, assume interinamente o pastor Ubiratan Batista Job. Com a morte do pastor Ferreira, é marcada uma eleição para a substituição do mesmo, sendo que duas chapas são formadas. Uma delas é encabeçada pelo próprio Job e outra, pelo jovem pastor Humberto Schmidt com um grupo de pastores que apoiou a destituição de Taranger. 
Pastor Humberto Schmidt: profeta de Deus ou um ambicioso ministerial?


Job venceu as eleições, porém a oposição exigiu, como condição para não haver uma cisão na igreja, postos na administração da Convenção Estadual e a criação de um campo independente de trabalho na zona oeste de Porto Alegre, tendo com líder nada mais nada menos que Humberto Schmidt. Nenhum pedido foi aceito, o que gerou uma divisão liderada por Schmidt e a formação da Igreja Pentecostal Assembléia de Deus Ministério da Restauração.

Porém, ao visitar o site da AD Ministério Restauração, encontra-se uma versão no mínimo “celestial” da disputa pelo poder na AD na Capital do RS. Na versão oficial do novo ministério da AD gaúcha, Deus falara a Humberto Schmidt várias vezes (no Brasil e no exterior) que ele deveria abrir um novo trabalho evangélico. Comenta-se ainda o fato, de Schmidt sempre tentar negociar a emancipação do distrito a ele subordinado em Porto Alegre e da inflexibilidade do pastor Job em todo o processo.

É lógico, que em momento algum a referência aos fatos ocorridos há anos atrás, quando Schmidt ficou inconformado com a indicação que Nils Taranger fez de outro pastor para sucedê-lo, e nem a disputa que travou com Job na sucessão de Ferreira Filho. A argumentação na página virtual da igreja é sempre de que Humberto está defendendo os princípios das ADs e a cisão não somente é inevitável diante das circunstâncias, mas como o próprio Deus lhe dirige para tal desfecho.

Analisando o site, pode-se perceber que um grande número de membros e congregações aderiram ao novo movimento. Mas é conhecido, que a mensagem de “resgate” dos princípios bíblicos ou assembleianos é sedutor das massas. O discurso populista, somando-se ao desgaste das lideranças, e ao relaxamento dos usos e costumes da igreja, produz descontentamentos generalizados, principalmente entre os mais pobres e humildes, ou entre os assembleianos mais ortodoxos.


Nesse contexto de insatisfação, crises sucessórias e “revelações divinas”, Humberto Schmidt levanta-se como um profeta do Antigo Testamento, bradando contra “tudo o que ai está” e carrega milhares de membros para sua nova igreja.

O que se pode concluir de toda essa história, é que muitos interesses estavam em jogo. Alguns, claramente evidenciados, e outros nem tanto. Mas, infelizmente, observa-se que a cada crise, muita coisa é jogada para “debaixo do tapete” e cada grupo conta sua “história”. História essa omissa, alienante para alguns, ou celestial, edificante e perfeita para outros.

Fontes:


ALENCAR, Gedon. Assembleia de Deus-origem, implantação e militância (1911-1946). São Paulo: Arte Editorial, 2010.


ARAÚJO, Isael de. Dicionário do Movimento Pentecostal. Rio de Janeiro: CPAD, 2007.


DANIEL, Silas. História da Convenção Geral das Assembléias de Deus no Brasil. Rio de Janeiro: CPAD, 2004.


FRESTON, Paul. Breve História do Pentecostalismo. In: ____. Nem anjos nem demônios; interpretações sociológicas do pentecostalismo. Petrópolis: Vozes, 1994.

LOPES, Deivis Vânio. A Organização eclesiástica da Assembléia de Deus em Canoas/RS. – Porto Alegre, 2008. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais) – Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, PUCRS.


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